Paradigma de Pesquisa

Design Science Research

Um diagrama didático sobre o paradigma que estuda a produção e a avaliação de artefatos úteis para resolver problemas organizacionais relevantes, articulando rigor científico e relevância prática.

Diocelio Goulart · Bluestars · Pesquisa em IA, Transformação Digital e Modelos Preditivos

Sumário

  1. Definição e origem epistemológica
  2. Tipos de artefatos (March & Smith, 1995; Gregor & Hevner, 2013)
  3. As sete diretrizes de Hevner, March, Park e Ram (2004)
  4. DSRM: as seis atividades de Peffers et al. (2007)
  5. Three-Cycle View (Hevner, 2007)
  6. Matriz de Contribuição ao Conhecimento (Gregor & Hevner, 2013)
  7. DSR vs. outros paradigmas
  8. Referências
Seção 1

O que é Design Science Research?

DSR é um paradigma de pesquisa orientado à resolução de problemas, no qual o pesquisador produz e avalia artefatos cuja utilidade contribui simultaneamente para a prática organizacional e para a base de conhecimento científico.

"Design science (...) creates and evaluates IT artifacts intended to solve identified organizational problems." Hevner, March, Park & Ram (2004, p. 77)

Raiz filosófica: a ciência do artificial

A fundação epistemológica da DSR remonta a Herbert Simon (1996; 1ª ed. 1969). Em The Sciences of the Artificial, Simon distingue ciências naturais (que descrevem o que é) das ciências do artificial (que prescrevem o que deveria ser). Esta distinção sustenta a posição da DSR como ciência prescritiva: o objeto de estudo não é um fenômeno preexistente, mas um artefato deliberadamente projetado para alterar o estado de coisas no mundo (Simon, 1996).

Linha do tempo dos marcos teóricos

1969
Simon
Ciência do artificial
1995
March & Smith
Quatro artefatos
2004
Hevner et al.
Sete diretrizes
2007
Peffers et al.
DSRM (6 fases)
2007
Hevner
Three-cycle view
2013
Gregor & Hevner
Matriz de contribuição
Seção 2

O que conta como artefato em DSR?

March e Smith (1995) propuseram quatro categorias originais de artefatos. Gregor e Hevner (2013) acrescentaram uma quinta, ao incorporar as design theories como produto legítimo de pesquisa em design.

1

Constructs

Vocabulário e conceitos que estruturam um domínio de problema e solução.

Ex.: entidade, atributo, dívida técnica.
2

Models

Representações abstratas que descrevem relações entre constructs.

Ex.: diagrama ER, BPMN, modelo causal.
3

Methods

Procedimentos, algoritmos ou heurísticas para executar uma tarefa.

Ex.: método ágil, algoritmo de scoring.
4

Instantiations

Implementações funcionais (sistemas, protótipos) que operam no ambiente real.

Ex.: dashboard, app, modelo treinado.
5

Design Theories

Teorias prescritivas sobre como projetar artefatos para classes de problemas.

Ex.: teoria de design de comunidades online.

Nota: a quinta categoria foi explicitada por Gregor e Hevner (2013) ao argumentarem que o avanço cumulativo da DSR requer abstração para além da instância concreta.

Seção 3

As sete diretrizes de Hevner, March, Park e Ram (2004)

Hevner et al. (2004) propuseram diretrizes normativas para conduzir e avaliar pesquisa em DSR. Cada diretriz endereça uma exigência específica de rigor ou relevância.

1

Design como Artefato

Toda pesquisa DSR deve produzir um artefato viável (construct, modelo, método ou instanciação).

2

Relevância do Problema

O objetivo é desenvolver soluções baseadas em tecnologia para problemas de negócio importantes e ainda não resolvidos.

3

Avaliação do Design

A utilidade, qualidade e eficácia do artefato precisam ser demonstradas por métodos de avaliação rigorosos.

4

Contribuições de Pesquisa

A pesquisa deve oferecer contribuições claras e verificáveis nas áreas do artefato, dos fundamentos ou das metodologias de design.

5

Rigor da Pesquisa

Métodos rigorosos devem ser aplicados na construção e na avaliação do artefato.

6

Design como Processo de Busca

O design é um processo iterativo de busca por uma solução eficaz, usando meios disponíveis para atingir fins desejados sob restrições.

7

Comunicação da Pesquisa

Os resultados devem ser comunicados de forma eficaz tanto a audiências orientadas à tecnologia quanto à gestão.

Seção 4

DSRM: o procedimento de Peffers, Tuunanen, Rothenberger e Chatterjee (2007)

Enquanto Hevner et al. (2004) prescrevem o que uma pesquisa DSR deve atender, Peffers et al. (2007) operacionalizam o como. A DSRM organiza a condução da pesquisa em seis atividades sequenciais, com quatro pontos de entrada possíveis conforme a origem da motivação.

1

Identificação do problema e motivação

Definir o problema específico e justificar o valor da solução.

2

Objetivos da solução

Inferir objetivos qualitativos ou quantitativos a partir do problema.

3

Design e desenvolvimento

Construir o artefato e determinar sua funcionalidade e arquitetura.

4

Demonstração

Demonstrar o uso do artefato para resolver instâncias do problema.

5

Avaliação

Observar e medir o quão bem o artefato suporta a solução do problema.

6

Comunicação

Comunicar o problema, o artefato, sua utilidade, rigor e novidade.

Quatro pontos de entrada possíveis

  • Iniciado pelo problema: a pesquisa começa em (1), motivada por observação prática.
  • Iniciado por objetivo: começa em (2), quando há um objetivo de melhoria sem problema bem delimitado.
  • Iniciado pelo design e desenvolvimento: começa em (3), quando o artefato já existe e a pesquisa busca formalizá-lo.
  • Iniciado pelo cliente ou contexto: começa em (4), quando há uma solução em uso aguardando avaliação formal.
Seção 5

Three-Cycle View (Hevner, 2007)

Em complemento às diretrizes de 2004, Hevner (2007) propôs uma visão de três ciclos articulados que devem estar presentes em qualquer pesquisa DSR. A ausência de qualquer um dos ciclos compromete a integridade do paradigma.

Ambiente Pessoas Organizações Sistemas técnicos Problemas e oportunidades Design Science Research Construir Avaliar Ciclo interno de design iterativo Base de Conhecimento Fundamentos científicos e teóricos Metodologias de pesquisa Experiência e expertise Ciclo de Relevância Requisitos · Testes de campo Ciclo de Rigor Teorias · Métodos · Adições à base Ciclo de Design Iteração construir ↔ avaliar

Ciclo de Relevância

Conecta o ambiente de aplicação à atividade de pesquisa: fornece requisitos e recebe artefatos para teste de campo.

Ciclo de Design

Ciclo interno e iterativo entre construir o artefato e avaliá-lo, refinando a solução em sucessivas versões.

Ciclo de Rigor

Conecta a pesquisa à base de conhecimento: importa teorias e métodos validados, devolve novas contribuições.

Seção 6

Matriz de contribuição ao conhecimento (Gregor & Hevner, 2013)

Gregor e Hevner (2013) propuseram uma matriz 2×2 que cruza a maturidade da solução conhecida com a maturidade do domínio do problema. A matriz orienta o pesquisador a posicionar sua contribuição e a justificar por que ela merece ser publicada.

Solução conhecida
Solução nova
Problema novo

Exaptação

Adaptar uma solução já conhecida para um problema em novo domínio.

Invenção

Solução radicalmente nova para problema inédito. Alto risco, alta contribuição.

Problema conhecido

Design rotineiro

Aplicação de soluções consolidadas a problemas conhecidos. Não configura contribuição de pesquisa.

Melhoramento

Solução nova ou mais eficiente para problema já estudado. Contribuição mais comum em DSR.

Eixo horizontal: maturidade da solução. Eixo vertical: maturidade do domínio do problema. O quadrante "design rotineiro" cai fora do escopo de DSR (Gregor & Hevner, 2013).

Seção 7

DSR comparada a outros paradigmas de pesquisa

Para situar DSR no campo da pesquisa em Administração e Sistemas de Informação, conviene compará-la com paradigmas de pesquisa comportamental e action research.

Critério DSR Pesquisa comportamental Action Research
Objetivo Construir e avaliar artefato útil Descrever, explicar, predizer fenômenos Resolver problema real com participação dos envolvidos
Saída primária Artefato + design knowledge Teoria empiricamente testada Intervenção + aprendizado organizacional
Critério de avaliação Utilidade, qualidade, eficácia Validade interna e externa, confiabilidade Resolução do problema e mudança gerada
Postura epistemológica Pragmática (Simon, 1996) Positivista ou interpretativa Construtivista, participativa
Iteração Ciclos build–evaluate Tipicamente sequencial Ciclos plan–act–observe–reflect

Síntese baseada em March e Smith (1995), Hevner et al. (2004) e Gregor e Hevner (2013). A literatura registra debates sobre fronteiras entre DSR e action research; Iivari e Venable (2009) discutem similaridades e diferenças relevantes para pesquisadores que combinam as duas abordagens.

Referências

Referências (APA 7)

Gregor, S., & Hevner, A. R. (2013). Positioning and presenting design science research for maximum impact. MIS Quarterly, 37(2), 337–355. https://doi.org/10.25300/MISQ/2013/37.2.01

Hevner, A. R. (2007). A three cycle view of design science research. Scandinavian Journal of Information Systems, 19(2), Article 4. https://aisel.aisnet.org/sjis/vol19/iss2/4

Hevner, A. R., March, S. T., Park, J., & Ram, S. (2004). Design science in information systems research. MIS Quarterly, 28(1), 75–105. https://doi.org/10.2307/25148625

Iivari, J., & Venable, J. (2009). Action research and design science research: Seemingly similar but decisively dissimilar. In 17th European Conference on Information Systems (ECIS 2009).

March, S. T., & Smith, G. F. (1995). Design and natural science research on information technology. Decision Support Systems, 15(4), 251–266. https://doi.org/10.1016/0167-9236(94)00041-2

Peffers, K., Tuunanen, T., Rothenberger, M. A., & Chatterjee, S. (2007). A design science research methodology for information systems research. Journal of Management Information Systems, 24(3), 45–77. https://doi.org/10.2753/MIS0742-1222240302

Simon, H. A. (1996). The sciences of the artificial (3rd ed.). MIT Press. (Trabalho original publicado em 1969)

Venable, J., Pries-Heje, J., & Baskerville, R. (2016). FEDS: A framework for evaluation in design science research. European Journal of Information Systems, 25(1), 77–89. https://doi.org/10.1057/ejis.2014.36

Limitações deste diagrama

Este material sintetiza marcos teóricos consolidados e omite debates ativos na literatura, entre os quais: a tensão entre DSR e Action Design Research (Sein, Henfridsson, Purao, Rossi & Lindgren, 2011); critérios de avaliação ex ante vs. ex post discutidos por Venable, Pries-Heje e Baskerville (2016); e a discussão sobre o que constitui uma "teoria de design" suficientemente abstrata para fins cumulativos. Cabe ao pesquisador retornar às fontes primárias antes de fundamentar decisões metodológicas em sua tese.

Versão 1.0 · 02 jun. 2026 · Compilado a partir de fontes primárias verificadas em DOI.