As Dez Escolas
de Estratégia
Uma taxonomia das principais correntes de pensamento sobre formação de estratégia, cada qual tocando uma parte diferente do "elefante" — a estratégia como processo complexo e multifacetado.
Em Safári de Estratégia, Mintzberg, Ahlstrand e Lampel classificam a literatura sobre estratégia em dez escolas, agrupadas em três famílias: as prescritivas (preocupam-se com como a estratégia deveria ser formulada), as descritivas (focam em como a estratégia realmente se forma) e a integrativa (busca combinar as demais numa visão de conjunto). Nenhuma escola, sozinha, explica o fenômeno completo — cada uma ilumina um aspecto do processo estratégico.
Estratégia como processo de concepção. O CEO, como arquiteto, busca o ajuste (fit) entre forças/fraquezas internas e ameaças/oportunidades externas. Origem da análise SWOT. A formulação é separada da implementação: primeiro pensa-se, depois age-se.
Estratégia como processo formal. Decompõe a formulação em etapas sequenciais, com planos detalhados, orçamentos, cronogramas e controles. Departamentos de planejamento substituem a intuição do CEO. Produz planos estratégicos densos, mas frequentemente criticados por serem rígidos demais.
Estratégia como processo analítico. Foco na seleção de posições genéricas no mercado com base na análise da indústria. A vantagem competitiva vem de liderança em custo, diferenciação ou foco. As cinco forças competitivas e a cadeia de valor são as ferramentas centrais. Escola dominante nos anos 1980.
Estratégia como processo visionário. Centrada na visão do líder empreendedor — uma representação mental do futuro desejado. A estratégia existe na mente do fundador como perspectiva, não como plano analítico. Destaca a intuição, o julgamento e a experiência como fontes de estratégia.
Estratégia como processo mental. Investiga como os estrategistas pensam — seus mapas cognitivos, vieses, esquemas e modelos mentais. A estratégia emerge como interpretação subjetiva da realidade, não como reflexo objetivo do ambiente. Limitações cognitivas (racionalidade limitada) condicionam as decisões estratégicas.
Estratégia como processo emergente. A estratégia se forma ao longo do tempo, por tentativa e erro, à medida que a organização aprende. Contrasta fortemente com as escolas prescritivas: aqui, formulação e implementação se mesclam. Introduz o conceito de estratégia emergente vs. deliberada e de competências essenciais.
Estratégia como processo de negociação. A formação de estratégia é um jogo político — coalizões, barganhas e interesses conflitantes. Divide-se em micro poder (política interna) e macro poder (a organização usando poder sobre seu ambiente: alianças, joint ventures, redes).
Estratégia como processo coletivo. A cultura organizacional — crenças, valores, tradições — influencia a formação de estratégia. Estratégia como perspectiva enraizada nas intenções coletivas. Explica a resistência à mudança estratégica e conecta-se à Visão Baseada em Recursos (RBV): recursos valiosos, raros e inimitáveis têm raízes culturais.
Estratégia como processo reativo. O ambiente é a força central — a organização reage e se adapta, ou é selecionada para fora. Apoiada na ecologia organizacional (seleção natural das organizações) e na teoria institucional (pressão por isomorfismo). Reduz o espaço para escolha estratégica: o ambiente determina quem sobrevive.
Estratégia como processo de transformação. As organizações existem em estados de configuração estáveis, intercalados por períodos de transformação radical. Cada configuração demanda um tipo diferente de formação de estratégia — às vezes deliberada (Design), às vezes emergente (Aprendizado), às vezes visionária (Empreendedora). A escola-síntese que acomoda todas as demais.
graph TD
subgraph PRESCRITIVAS
D["1 Design
SWOT, fit"]
PL["2 Planejamento
processo formal"]
PO["3 Posicionamento
5 Forcas, Porter"]
end
subgraph DESCRITIVAS
EM["4 Empreendedora
visao do lider"]
CO["5 Cognitiva
mapas mentais"]
AP["6 Aprendizado
estrategia emergente"]
PW["7 Poder
negociacao politica"]
CU["8 Cultural
valores coletivos"]
AM["9 Ambiental
selecao natural"]
end
CF["10 Configuracao
SINTESE"]
D --> PL
PL --> PO
D -.->|"CEO como estrategista"| EM
CO -.->|"limites da racionalidade"| D
AP -.->|"critica ao planejamento formal"| PL
PW -.->|"coalizoes internas"| CU
CU -.->|"recursos inimitaveis"| PO
AM -.->|"selecao vs. escolha"| EM
AP -->|"formula + implementa"| CF
D --> CF
PO --> CF
EM --> CF
CU --> CF
AM --> CF
| Tema | Escolas que Convergem | Ponto Comum |
|---|---|---|
| Papel do líder | Design, Empreendedora, Cognitiva | A estratégia depende fortemente da mente do líder — seja como arquiteto, visionário ou intérprete cognitivo da realidade. |
| Ambiente como variável central | Posicionamento, Ambiental, Aprendizado | O ambiente externo (indústria, seleção, incerteza) é determinante. Diferem no grau de agência concedido à organização. |
| Processo coletivo | Aprendizado, Cultural, Poder | A estratégia não é obra de um indivíduo — emerge de interações coletivas, sejam elas colaborativas, culturais ou políticas. |
| Crítica à racionalidade plena | Cognitiva, Aprendizado, Poder | Rejeitam a premissa de decisões perfeitamente racionais. Reconhecem vieses, aprendizado incremental e jogos de poder. |
| Integração | Configuração + todas | A escola da Configuração é explicitamente integrativa: aceita que cada escola capta uma fase ou contexto específico. |
| Dimensão | Polo A | Polo B |
|---|---|---|
| Deliberada vs. Emergente | Design, Planejamento, PosicionamentoEstratégia é pensada antes de agir | Aprendizado, EmpreendedoraEstratégia emerge da ação |
| Indivíduo vs. Coletivo | Design, Empreendedora, CognitivaA mente de um líder é o centro | Cultural, Aprendizado, PoderProcessos sociais distribuídos |
| Interno vs. Externo | Cultural, Cognitiva, EmpreendedoraFoco em recursos, cognição, visão interna | Posicionamento, AmbientalFoco em indústria, mercado, seleção |
| Agência vs. Determinismo | Design, Empreendedora, PoderA organização escolhe e molda o ambiente | Ambiental, PosicionamentoO ambiente limita e seleciona |
| Conteúdo vs. Processo | PosicionamentoO quê — posições e estratégias genéricas | Aprendizado, Cognitiva, PoderO como — o processo de formação |
| Estabilidade vs. Mudança | Cultural, PlanejamentoInércia, planos de longo prazo, tradição | Empreendedora, Aprendizado, ConfiguraçãoRuptura, emergência, transformação |
Ver referências bibliográficas
Porter, M. E. (1980). Competitive Strategy. Free Press.
Porter, M. E. (1985). Competitive Advantage. Free Press.
Ansoff, H. I. (1965). Corporate Strategy. McGraw-Hill.
Andrews, K. R. (1971). The Concept of Corporate Strategy. Dow Jones-Irwin.
Prahalad, C. K., & Hamel, G. (1990). The Core Competence of the Corporation. Harvard Business Review, 68(3), 79–91.
Hannan, M. T., & Freeman, J. (1977). The Population Ecology of Organizations. American Journal of Sociology, 82(5), 929–964.
DiMaggio, P. J., & Powell, W. W. (1983). The Iron Cage Revisited. American Sociological Review, 48(2), 147–160.
Simon, H. A. (1947). Administrative Behavior. Macmillan.
Pfeffer, J., & Salancik, G. R. (1978). The External Control of Organizations. Harper & Row.