As Dez Escolas
de Estratégia

Mintzberg, Ahlstrand & Lampel — Strategy Safari (1998)

Uma taxonomia das principais correntes de pensamento sobre formação de estratégia, cada qual tocando uma parte diferente do "elefante" — a estratégia como processo complexo e multifacetado.

Visão Geral

Em Safári de Estratégia, Mintzberg, Ahlstrand e Lampel classificam a literatura sobre estratégia em dez escolas, agrupadas em três famílias: as prescritivas (preocupam-se com como a estratégia deveria ser formulada), as descritivas (focam em como a estratégia realmente se forma) e a integrativa (busca combinar as demais numa visão de conjunto). Nenhuma escola, sozinha, explica o fenômeno completo — cada uma ilumina um aspecto do processo estratégico.

Escolas Prescritivas

Como a estratégia deve ser formulada

Focam no processo ideal de formulação. A estratégia nasce de um processo deliberado, racional e controlado pela alta administração.

1
Escola do Design
Selznick (1957) · Chandler (1962) · Andrews (1971) · Christensen

Estratégia como processo de concepção. O CEO, como arquiteto, busca o ajuste (fit) entre forças/fraquezas internas e ameaças/oportunidades externas. Origem da análise SWOT. A formulação é separada da implementação: primeiro pensa-se, depois age-se.

SWOT Fit CEO como arquiteto
2
Escola do Planejamento
Ansoff (1965) · Steiner (1969) · Lorange

Estratégia como processo formal. Decompõe a formulação em etapas sequenciais, com planos detalhados, orçamentos, cronogramas e controles. Departamentos de planejamento substituem a intuição do CEO. Produz planos estratégicos densos, mas frequentemente criticados por serem rígidos demais.

Plano formal Ansoff Matrix Análise PEST
3
Escola do Posicionamento
Porter (1980, 1985) · BCG (Henderson) · Schendel & Hatten

Estratégia como processo analítico. Foco na seleção de posições genéricas no mercado com base na análise da indústria. A vantagem competitiva vem de liderança em custo, diferenciação ou foco. As cinco forças competitivas e a cadeia de valor são as ferramentas centrais. Escola dominante nos anos 1980.

5 Forças Cadeia de Valor Estratégias Genéricas
Escolas Descritivas

Como a estratégia realmente se forma

Não prescrevem um processo ideal — descrevem como a estratégia emerge na prática, enfatizando cognição, aprendizado, poder, cultura e ambiente.

4
Escola Empreendedora
Schumpeter (1934) · Cole (1959) · Drucker · Pinchot

Estratégia como processo visionário. Centrada na visão do líder empreendedor — uma representação mental do futuro desejado. A estratégia existe na mente do fundador como perspectiva, não como plano analítico. Destaca a intuição, o julgamento e a experiência como fontes de estratégia.

Visão Intuição Destruição Criativa
5
Escola Cognitiva
Simon (1947) · March & Simon (1958) · Tversky & Kahneman · Weick

Estratégia como processo mental. Investiga como os estrategistas pensam — seus mapas cognitivos, vieses, esquemas e modelos mentais. A estratégia emerge como interpretação subjetiva da realidade, não como reflexo objetivo do ambiente. Limitações cognitivas (racionalidade limitada) condicionam as decisões estratégicas.

Racionalidade Limitada Mapas Cognitivos Vieses
6
Escola do Aprendizado
Lindblom (1959) · Mintzberg (1978) · Quinn (1980) · Prahalad & Hamel (1990) · Senge · Nonaka

Estratégia como processo emergente. A estratégia se forma ao longo do tempo, por tentativa e erro, à medida que a organização aprende. Contrasta fortemente com as escolas prescritivas: aqui, formulação e implementação se mesclam. Introduz o conceito de estratégia emergente vs. deliberada e de competências essenciais.

Estratégia Emergente Core Competences Incrementalismo Lógico
7
Escola do Poder
Pfeffer & Salancik (1978) · Allison (1971) · Cyert & March · Astley

Estratégia como processo de negociação. A formação de estratégia é um jogo político — coalizões, barganhas e interesses conflitantes. Divide-se em micro poder (política interna) e macro poder (a organização usando poder sobre seu ambiente: alianças, joint ventures, redes).

Coalizões Barganha Dependência de Recursos
8
Escola Cultural
Rhenman & Normann · Pettigrew (1985) · Barney (1986) · Weick

Estratégia como processo coletivo. A cultura organizacional — crenças, valores, tradições — influencia a formação de estratégia. Estratégia como perspectiva enraizada nas intenções coletivas. Explica a resistência à mudança estratégica e conecta-se à Visão Baseada em Recursos (RBV): recursos valiosos, raros e inimitáveis têm raízes culturais.

Cultura RBV Resistência à Mudança
9
Escola Ambiental
Hannan & Freeman (1977) · DiMaggio & Powell (1983) · Aldrich · Pugh

Estratégia como processo reativo. O ambiente é a força central — a organização reage e se adapta, ou é selecionada para fora. Apoiada na ecologia organizacional (seleção natural das organizações) e na teoria institucional (pressão por isomorfismo). Reduz o espaço para escolha estratégica: o ambiente determina quem sobrevive.

Ecologia Organizacional Isomorfismo Contingência
Escola Integrativa

A síntese: estratégia como transformação

Combina os elementos das demais escolas, reconhecendo que a estratégia assume diferentes formas em diferentes momentos e contextos da vida organizacional.

10
Escola da Configuração
Mintzberg & Miller (1979) · Miles & Snow (1978) · Miller & Friesen · Chandler

Estratégia como processo de transformação. As organizações existem em estados de configuração estáveis, intercalados por períodos de transformação radical. Cada configuração demanda um tipo diferente de formação de estratégia — às vezes deliberada (Design), às vezes emergente (Aprendizado), às vezes visionária (Empreendedora). A escola-síntese que acomoda todas as demais.

Configuração Transformação Ciclos de Vida
Somos cegos, e a formação de estratégia é o nosso elefante. Cada um toca uma parte e conclui que descobriu a natureza da besta. — Mintzberg, Ahlstrand & Lampel, Strategy Safari, 1998
Mapa Relacional
graph TD
  subgraph PRESCRITIVAS
    D["1 Design
SWOT, fit"] PL["2 Planejamento
processo formal"] PO["3 Posicionamento
5 Forcas, Porter"] end subgraph DESCRITIVAS EM["4 Empreendedora
visao do lider"] CO["5 Cognitiva
mapas mentais"] AP["6 Aprendizado
estrategia emergente"] PW["7 Poder
negociacao politica"] CU["8 Cultural
valores coletivos"] AM["9 Ambiental
selecao natural"] end CF["10 Configuracao
SINTESE"] D --> PL PL --> PO D -.->|"CEO como estrategista"| EM CO -.->|"limites da racionalidade"| D AP -.->|"critica ao planejamento formal"| PL PW -.->|"coalizoes internas"| CU CU -.->|"recursos inimitaveis"| PO AM -.->|"selecao vs. escolha"| EM AP -->|"formula + implementa"| CF D --> CF PO --> CF EM --> CF CU --> CF AM --> CF
Convergências
TemaEscolas que ConvergemPonto Comum
Papel do líderDesign, Empreendedora, CognitivaA estratégia depende fortemente da mente do líder — seja como arquiteto, visionário ou intérprete cognitivo da realidade.
Ambiente como variável centralPosicionamento, Ambiental, AprendizadoO ambiente externo (indústria, seleção, incerteza) é determinante. Diferem no grau de agência concedido à organização.
Processo coletivoAprendizado, Cultural, PoderA estratégia não é obra de um indivíduo — emerge de interações coletivas, sejam elas colaborativas, culturais ou políticas.
Crítica à racionalidade plenaCognitiva, Aprendizado, PoderRejeitam a premissa de decisões perfeitamente racionais. Reconhecem vieses, aprendizado incremental e jogos de poder.
IntegraçãoConfiguração + todasA escola da Configuração é explicitamente integrativa: aceita que cada escola capta uma fase ou contexto específico.
Divergências
DimensãoPolo APolo B
Deliberada vs. Emergente Design, Planejamento, PosicionamentoEstratégia é pensada antes de agir Aprendizado, EmpreendedoraEstratégia emerge da ação
Indivíduo vs. Coletivo Design, Empreendedora, CognitivaA mente de um líder é o centro Cultural, Aprendizado, PoderProcessos sociais distribuídos
Interno vs. Externo Cultural, Cognitiva, EmpreendedoraFoco em recursos, cognição, visão interna Posicionamento, AmbientalFoco em indústria, mercado, seleção
Agência vs. Determinismo Design, Empreendedora, PoderA organização escolhe e molda o ambiente Ambiental, PosicionamentoO ambiente limita e seleciona
Conteúdo vs. Processo PosicionamentoO quê — posições e estratégias genéricas Aprendizado, Cognitiva, PoderO como — o processo de formação
Estabilidade vs. Mudança Cultural, PlanejamentoInércia, planos de longo prazo, tradição Empreendedora, Aprendizado, ConfiguraçãoRuptura, emergência, transformação
Obras de Referência
Ver referências bibliográficas
Mintzberg, H., Ahlstrand, B., & Lampel, J. (1998). Strategy Safari: A Guided Tour Through the Wilds of Strategic Management. Free Press.

Porter, M. E. (1980). Competitive Strategy. Free Press.

Porter, M. E. (1985). Competitive Advantage. Free Press.

Ansoff, H. I. (1965). Corporate Strategy. McGraw-Hill.

Andrews, K. R. (1971). The Concept of Corporate Strategy. Dow Jones-Irwin.

Prahalad, C. K., & Hamel, G. (1990). The Core Competence of the Corporation. Harvard Business Review, 68(3), 79–91.

Hannan, M. T., & Freeman, J. (1977). The Population Ecology of Organizations. American Journal of Sociology, 82(5), 929–964.

DiMaggio, P. J., & Powell, W. W. (1983). The Iron Cage Revisited. American Sociological Review, 48(2), 147–160.

Simon, H. A. (1947). Administrative Behavior. Macmillan.

Pfeffer, J., & Salancik, G. R. (1978). The External Control of Organizations. Harper & Row.